Cidade
Homenageia Carmen Miranda
Matéria do Jornal "Folha de S.Paulo" - 9 de fevereiro
de 1999.
Dia
oferece muitas lembranças
(por
Paulo Santos Lima - free-lance para a Folha)
Os
90 anos de nascimento de Carmen Miranda são comemorados com vários
eventos que acontecem hoje na cidade.

“No
Tic Tac de Carmen Miranda", mostra promovida pela Caixa
Econômica Federal que começou em 5 de agosto data do aniversário
de 43 anos de morte da artista, programada ate hoje, foi prorrogada
indeterminadamente. As presenças da amiga, jornalista e autora
de O ABC de Carmen, Dulce Damasceno de Brito, da irmã Aurora
Miranda (leia texto abaixo) e do diretor do museu Carmen Miranda, Iberê
Magnani, estão confirmadas às 19h.
A
vantagem da exposição no Espaço Cultural da Caixa
é trazer do Rio de Janeiro onde fica o museu - trajes, objetos
pessoais, fotos, cartazes de filmes etc. A exibição de
14 filmes e seis documentários está agendada diariamente.
As
charges de Luiz Fernandez, cartunista que seguiu toda a carreira
de Carmen, estão em Carmen - Caricaturas da Vida Inteira, que
acontece no mesmo local.
Ary
Barroso
O
compositor de clássicos que Carmen imortalizou, como No Tabuleiro
da Baiana e Eu Dei..., merece tanta lembrança quanto a amiga.
Ary Barroso morria aos 60 anos, em 1964, na mesma data de nascimento
da mulher que fez a imagem do Brasil no exterior.

A
artista, que faria 90 anos hoje, é celebrada em vários
eventos e tem sua vida comentada em nova biografia (por Alberto Helena
Jr. - da equipe de articulistas)
Na
biografia "Carmen Miranda Foi a Washington", nossa Pequena
Notável demora um tanto para partir. Antes, a autora, Ana Rita
Mendonça, faz um longo passeio pela década de 30, a revolução,
a ditadura Vargas, a época de ouro da música popular brasileira,
o nascimento da pornochanchada da Cinédia e tal e coisa.
Uma
sucessão de clichês que, no entanto, para os mais desavisados,
serve de introdução ao mundo que viu nascer a estrela
Carmen Miranda, até hoje a cantora brasileira de maior sucesso
nos EUA.
A
portuguesinha carioquíssima, de olhos verdes bulicosos, chapeleira
de ofício e cantora por vocação, emerge nesse mundo,
vez por outra, e se esconde novamente quando a autora arremete sobre
as armações do governo Roosevelt para estabelecer a política
da boa vizinhança, plataforma de lançamento de Carmen
à Broadway e, em seguida, à Hollywood.
Deus,
parece que foi ontem que o jornalista José Ramos Tinhorão
incendiou o país com a tese que hoje está incorporada
à biografia de Carmen. Menos mal.
Mesmo
porque Ana Rita Mendonça o que faz é compilar, com acuro
e empenho, documentos oficiais, recortes de jornais e revistas e livros,
aos quais junta alguns de-poimentos de testemunhas de episódios
marcantes desse período.
Salpica
tudo com algumas letras dos sucessos da cantora, e, em alguns momentos,
quando tenta se embrenhar pelo bananal de matéria plástica
que ornava os célebres turbantes da artista, leva como guia Lacan
e algumas feministas. (A propósito, é bom avisar: todos
os textos, entrevistas, letras de música e e frases ditas em
inglês ficam no original. A tradução vai lá
no final do capítulo.)
É
quando desenvolve a única tese do livro: Carmen como um objeto
do desejo de dois mundos - o civilizado e o natural. O civilizado é
o americano; o natural, claro, nosotros. Lê-se, então,
no subtexto, que Carmen foi vítima da coisificação,
embora lutasse para manter sua identidade humana.
Mais
ou menos o que a própria autora fez com sua personagem: ao longo
de todo o livro, Carmen é um objeto levado daqui pra lá,
colocado em cena, tirado de cena, analisado por este ou aquele jornalista;
ora, um ícone da pátria; ora, uma abjeta traidora dos
mais caros valores nacionais.
A
Carmen Miranda, persona, desde a menina divertida e sensual da Travessa
do Comércio dos anos 20 até a máscara mortuária
que desembarcou no Rio nos plastificados anos 50, essa não tem
vida.
Nem
mesmo a estrela, como tal, merece uma análise mais aprofundada.
O que fez de Carmen, uma cantora de voz estridente, que regularmente
desafinava nas notas altas, essa intérprete fenomenal? Por certo,
não era a tão decantada brasilidade se levarmos em conta
a opinião que Noel Rosa tinha de sua interpretação.
Para Noel, Carmen cantava tango, qualquer coisa, menos samba.
Hollywood
imortalizou apenas uma caricatura de Carmen. Mas, antes de partir, por
aqui, Carmen era um sucesso como nenhuma outra cantora fora antes e
só Elis Regina, décadas depois, o seria.
Talvez
um dos slogans que o radialista César Ladeira lhe pespegou -
A Garota do It - possa servir de pista. It, na gíria dos anos
30, significava aquele algo mais, o diferencial, carisma. It talvez
seja o id freudiano. O it e o id de Carmen Miranda, eis um livro que
ainda está para ser escrito, com a alma do escritor, não
do pesquisador.
Palavras
Irmãs

"Dos
seis irmãos, Carmen era a mais chegada. Sinto falta dela ainda
hoje e só tenho ótimas lembranças. Nunca me esquecerei
do presente de casamento que ela deu para mim e meu marido, Gabriel
Richaid: uma lua -de-mel em Los Angeles e que me fez decidir morar lá.
Lembro-me, também, do incidente no Cassino da Urca, em 40, quando
Carmen re-tornava ao Brasil e foi fria-mente recebida pelo públi-co.
Mesmo abalada, acabou cantando 'Disseram Que Voltei Americanizada'.
E as pessoas deliraram com o seu tapa de luva de pelica."
— Aurora Miranda, 83, cantora que acompanhou a irmã em
toda sua carreira
Os
90 anos de nascimento de Carmen Miranda são comemorados com vários
eventos que acontecem hoje na cidade.
A
"Pequena Notável" em São Paulo:
"No Tic Tac de Carmen Miranda
Exposição com discos raros, publicações,
fotos, cartazes, filmes etc.
—
"90 Anos da Pequena Notável"
Performance
do duo Moacyr e Sandra com o Show 'Pra Carmen'.
Quando:
hoje, às 19h
Onde: Conjunto Cultural da Caixa
Quanto: grátis
